sábado, 29 de maio de 2010

O burro coerente

Fosse Jesus Cristo o técnico da Seleção Brasileira, não faltariam nem mesmo beatas a palpitar na escalação do time. Fosse Roberto Marinho e até parte da alta cúpula global protestaria em favor de jogadores que não foram chamados. Vovó, por toda a vida uma apaziguadora nata em qualquer discussão, estivesse conosco, reclamaria da ausência do Fenômeno (mesmo fora de forma). O Ronaldinho é formidável, dizia vovó, puxando o erre como faz Galvão em seus gritos de gol. A sina que Dunga leva consigo, portanto, não é dele próprio – mas intrínseca ao posto que ocupa. Ele sabe disso, nós todos sabemos.

Muito se falou, sobretudo depois de anunciada a convocação para a Copa do Mundo, sobre dois aspectos característicos ao atual treinador canarinho: burrice e coerência – e aí reside seu primeiro mérito. Todo técnico da Seleção é burro quando a avaliação está sob os cuidados de quase 190 milhões de brasileiros (e não nos esqueçamos: em época de Copa, todos, absolutamente todos os cidadãos têm – ou acham que têm – propriedade de rei para dizer e desdizer verdades a respeito do escrete verde-amarelo). Pouquíssimos, entretanto, são coerentes.

Há pelo menos outros cinco motivos para confiarmos em Dunga:
1) Capitão da equipe em 94, foi ele o primeiro a erguer o troféu do tetra. Conhece bem, portanto, o peso da taça.

2) Conquistou os dois torneios que disputou como treinador pela seleção principal, classificou o time em primeiro lugar nas Eliminatórias e seu aproveitamento total é de 76,7% em 53 jogos.

3) Manteve o Brasil na liderança do ranking da FIFA.

4) A base de seu time está entrosada há muito tempo e preza pela coletividade. Não dependeremos, portanto, da estrela de um só jogador – que pode, num dia ruim, desperdiçar o sonho de uma nação.

5) Ainda que lhe falte experiência prévia como técnico de futebol, sobra-lhe entendimento sobre o valor da camisa amarela.

Quando chegou à Seleção, após o fracasso em 2006, a missão de Dunga era reformular o espírito do time. Foi o que ele fez. Aposentou os eternos laterais, afastou os maiores craques em seus maus momentos. Impediu até mesmo regalias à imprensa que prejudicassem a concentração de seu grupo. Usou da razão para reafirmar sua coerência, sempre ela, e da emoção para explicitar a necessidade do amor à camisa. Foi acusado de insensatez, pois futebol é momento e não coerência, depois de piegas, démodé. É mais fácil agradar a gregos e troianos a agradar os brasileiros. Dunga sabe disso, nós também.


É retranqueiro, dizem. Pois comemoremos! Júlio César, Maicon e Lúcio são campeões do torneio de clubes mais forte do mundo. Faltou o Ganso, faltou o Neymar. O Gaúcho merecia uma nova chance. Pois que sempre sintamos a ausência de craques vestindo a amarelinha, sinal de que o que não nos falta é jogador de alto nível. Os irlandeses, por exemplo, jamais tiveram de se mobilizar pela convocação de um craque; estão satisfeitos, ao contrário, se conseguirem completar duas mãos e um dedo de jogadores que possam vestir a camisa verde e laranja.

Em analogia rasa, Dunga no comando da Seleção é compatível a Lula no comando do País: a reação ao trabalho de ambos se baseia em preconceitos, bairrismos e questões pessoais que transcendem seus trabalhos em si. O peso de um eventual fracasso seria bem maior que a celebração de um eventual triunfo. Mas Dunga sabe disso, Lula sabe disso e nós também sabemos.

A taça da Copa do Mundo, além do mais, nos pede que, entre um burro coerente e um Mestre na arte do futebol bonito, fiquemos, pois, com o primeiro. É isso que a História já nos mostrou.

3 comentários:

  1. texto perfeito até a parte do Lula. Po Thiaguinho!!! rs

    Mas concordo com tudo o que falou sobre o Dunga, pedir Ganso e Neymar porque ganharam o campeonato paulista (de quem mesmo?) e pq são meninos que jogam bem, é falta de bom senso.

    Confio no Dunga e acho que mesmo que ele não traga a taça, tera feito um bom trabalho. Se perdermos é pq outra seleção foi melhor que a nossa, não porque ele errou.

    Pena que poucos sabem disso.

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  2. Burro o Felipão também era, que o diga o chorão do Romario. E depois da raiva que eu passei em 2006, eu to adorando ver na seleção algumas escolhas que julgo discutiveis. Pois em 2006 eu aprovava 100% dos craques e nos vimos no que deu.

    E por enquanto a Tunisia esta ganhando da França por 1x0. rs

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  3. Bela, amigo. Não sei pq só li hj. Acho que vou comentar melhor daqui a dois dias, ao vivo do bar. Mas concordo contigo desde já. Embora só mesmo um técnico muito burro pra não convocar o melhor jogador do mundo de todos os tempos. Ainda bem que o Ronaldo Gorducho terá mais tempo para treinar e levar o brasileirão depois... hehe

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